Quem já enfrentou as estradas esburacadas do interior do Brasil, os portos congestionados do litoral ou os aeroportos superlotados das capitais sabe, na prática, o que os economistas chamam de déficit de infraestrutura. Esse gargalo não é apenas um inconveniente — é um freio real ao crescimento econômico do país.
Estimativas do Banco Mundial e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) indicam que o déficit de infraestrutura custa ao Brasil entre 1,5% e 2% do PIB ao ano em produtividade perdida. Em valores absolutos, estamos falando de mais de R$ 150 bilhões por ano que deixam de ser gerados por conta de estradas ruins, energia cara e logística ineficiente.
O mapa do atraso
O problema não é uniforme. Algumas regiões e setores estão muito mais atrasados do que outros. O Norte e o Nordeste concentram os maiores déficits em saneamento básico, energia elétrica e conectividade digital. Já o Centro-Oeste, apesar de ser o celeiro do agronegócio, ainda sofre com rodovias precárias e falta de ferrovias que escoem a produção de forma eficiente.
O modal ferroviário é talvez o exemplo mais emblemático do atraso brasileiro. Enquanto países como Estados Unidos, China e Rússia têm extensas redes ferroviárias para transporte de cargas, o Brasil ainda depende excessivamente do transporte rodoviário — mais caro, mais poluente e mais sujeito a acidentes. A malha ferroviária brasileira é de cerca de 30 mil quilômetros, uma fração do que seria necessário para um país de dimensões continentais.
Concessões e PPPs: avanços e limitações
O modelo de concessões e parcerias público-privadas tem sido a principal aposta do governo para atrair investimento privado em infraestrutura. Nos últimos anos, aeroportos, rodovias e portos foram concedidos à iniciativa privada, com resultados geralmente positivos em termos de qualidade e eficiência.
"As concessões funcionam bem quando o marco regulatório é estável e os contratos são bem desenhados. O problema é que, no Brasil, a instabilidade regulatória ainda afasta investidores que poderiam trazer capital e tecnologia para setores estratégicos." — Especialista em infraestrutura da FGV
O setor de saneamento básico é um bom exemplo de como as concessões podem transformar um setor. Após a aprovação do novo marco legal do saneamento em 2020, o investimento privado no setor cresceu significativamente, e a perspectiva de universalização do acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário — antes considerada utópica — tornou-se mais concreta.
O papel do BNDES
O BNDES continua sendo um ator central no financiamento de infraestrutura no Brasil. Com uma carteira de projetos que supera R$ 500 bilhões, o banco tem capacidade de alavancar investimentos em setores estratégicos. Nos últimos anos, o banco tem dado ênfase a projetos de energia renovável, mobilidade urbana e conectividade digital — áreas em que o Brasil tem potencial competitivo real.
O desafio é garantir que esses investimentos sejam feitos com eficiência e transparência, evitando os erros do passado — quando projetos superfaturados e mal planejados consumiram recursos públicos sem entregar os resultados prometidos. A lição da Lava Jato ainda está fresca na memória dos gestores públicos e dos investidores privados.